Um estudo da Bain & Company conclui que a inteligência artificial (IA) pode movimentar aproximadamente US$ 4,7 trilhões em lucros corporativos no período entre 2025 e 2035. Publicado na última terça-feira (8), o relatório mapeou 92 setores da economia global e estima que a tecnologia terá efeito mais amplo e mais rápido do que a internet — capaz de transformar 71% dos segmentos analisados, segundo a consultoria.
A comparação com a era da internet serve para dimensionar o potencial. Entre 1995 e 2015, a web gerou cerca de US$ 1,4 trilhão em lucros — US$ 1,1 trilhão advieram de crescimento líquido do pool de lucros (o total disponível de ganhos nas indústrias), enquanto US$ 300 bilhões foram redistribuídos entre concorrentes. A internet atuou sobretudo reduzindo custos de distribuição, ao eliminar a necessidade de infraestrutura física (lojas, agências, distribuidores) e, assim, permitir alcance direto ao consumidor via sites e plataformas.
Segundo a Bain, o efeito da IA é distinto: em vez de concentrar-se apenas na distribuição, a tecnologia reduz o custo de produzir o próprio produto ou serviço. Isso vale tanto para tarefas cognitivas — como diagnósticos médicos ou elaboração de contratos — quanto para operações físicas — como cultivo automatizado ou soldagem por robôs.
Os autores do estudo dividem o fenômeno em duas categorias principais. A chamada IA cognitiva transforma trabalhos baseados em conhecimento e expertise, substituindo ou acelerando decisões humanas em áreas como medicina, finanças e serviços profissionais. Já a IA incorporada (embodied AI) refere-se à integração da inteligência em robôs e veículos autônomos, que modifica a produção e as operações físicas em setores industriais e agrícolas. Hoje, a maior disrupção concentra-se no campo cognitivo, mas a Bain destaca avanço acelerado da IA incorporada.
Três vetores explicam como os US$ 4,7 trilhões podem se materializar:
- Produtividade: ganhos que tornam o trabalho mais barato, rápido ou escalável. A Bain estima que essa frente pode representar US$ 1,1 trilhão, cerca de 24% do total projetado. A estimativa considera apenas o valor que permanece com as empresas na forma de lucro, não os benefícios diretos aos consumidores.
- Inovação: novos produtos e modelos de negócio habilitados pela IA, como infraestrutura de semicondutores, data centers, sistemas autônomos e monitoramento contínuo de saúde. A consultoria atribui US$ 2,2 trilhões a essa categoria.
- Redistribuição de mercado (disputa por market share): mudanças na participação entre concorrentes, gerando US$ 1,3 trilhão. Cerca de 29% da alteração no pool de lucros deve decorrer dessa redistribuição, em que empresas que usam melhor a tecnologia ganham vantagem competitiva.
O relatório também organiza os setores em quatro grupos, de acordo com o tipo de transformação esperada:
- Fundação tecnológica (US$ 1,5 trilhão): inclui nuvem, data centers, semicondutores, PCs, servidores e modelos de fundação de IA. Esses segmentos sustentam a adoção da tecnologia pelos demais setores.
- Reconfiguração (US$ 1,5 trilhão): envolve setores cujo pool de lucros está sendo reconstruído, como farmacêutica e biotecnologia, saúde, equipamentos médicos, defesa, pagamentos, software corporativo, consultoria, advocacia, cibersegurança, transporte, logística e mídia interativa. Um exemplo citado é a imagem médica, onde sistemas de IA já analisam exames de radiologia com mais rapidez e, em muitos casos, maior precisão.
- Aumento (US$ 1,3 trilhão): setores em que o modelo de negócio se mantém, mas a execução se torna decisiva porque concorrentes têm acesso a ferramentas semelhantes. A hotelaria é citada como caso em que IA serve para prever demanda, ajustar preços dinamicamente e fortalecer relacionamento com clientes.
- Revolução (US$ 300 bilhões): segmentos em que a IA entrega diretamente o produto ou serviço central, ou elimina margens de intermediação. Exemplos incluem suporte ao cliente e serviços de tutoria, onde chatbots e sistemas automatizados substituem grande parte das equipes que lidavam com tarefas rotineiras.
A Bain ressalta que, diferentemente de alguns ciclos tecnológicos, a migração de lucros não está automaticamente favorecendo startups puras de IA. Em muitos casos, instituições estabelecidas com dados proprietários, aprovações regulatórias e fluxos operacionais consolidados (como hospitais e fabricantes de equipamentos médicos) podem concentrar os ganhos.
A metodologia do estudo combina dados observados dos pools de lucro em 1995, 2015 e 2025, validando-os em 91 setores durante o período da internet e ajustando as análises para a dinâmica mais rápida da IA. O relatório é assinado pelos consultores Dunigan O’Keeffe, Gardiner Kreglow, Gene Rapoport, Sophie Horrocks, Hernan Saenz e Martin Toner.