A inflação mais elevada do que o esperado, a escalada nos preços do petróleo e a resistência do mercado de trabalho nos Estados Unidos têm reforçado as apostas de que o Federal Reserve (Fed) deve elevar a taxa básica de juros na reunião de 16 de setembro de 2026. O patamar atual do Fed funds está entre 3,50% e 3,75%, e o mercado prevê um aumento de 0,25 ponto percentual, levando a faixa para 3,75%–4,00%.
Relatórios de instituições financeiras indicam que a decisão do Fed deve se apoiar em sinais de uma economia aquecida: crescimento sólido, emprego equilibrado e uma inflação que voltou a acelerar. Em agosto, o Índice de Preços ao Consumidor (CPI, na sigla em inglês) registrou alta de 0,4% no mês, o que representa 3,4% em 12 meses. O Índice de Preços ao Produtor (PPI) também avançou 0,4% em agosto, pressionado, em parte, pela disparada dos preços do diesel.
O preço do petróleo Brent ultrapassou a barreira de US$ 100 por barril recentemente, situação que exerce pressão adicional sobre os custos de energia. Analistas associam esse movimento a uma nova escalada de tensões no Oriente Médio, envolvendo ataques a petroleiros, ameaças ao tráfego no Estreito de Ormuz e ações dos rebeldes houthis no Estreito de Bab el-Mandeb, fatores que afetam diretamente a oferta e a percepção de risco na região.
Além dos dados de inflação e energia, o mercado de trabalho surpreendeu positivamente em agosto com a criação de 162 mil vagas, contra previsão de 55 mil. O resultado veio acompanhado de revisões altistas que somaram outras 55 mil vagas nos dois meses anteriores. O ganho foi liderado pela indústria de transformação, que adicionou 41 mil postos, e pelo setor de serviços, com 86 mil vagas. A taxa de desemprego permaneceu em 4,1%.
Esses números reforçam o argumento de membros do comitê de política monetária do Fed (FOMC) favoráveis a um aperto adicional. Em julho, a votação do FOMC já havia mostrado divergência: nove diretores votaram pela manutenção da taxa e três defenderam elevação imediata. Declarações recentes de dirigentes do Fed têm sinalizado preocupação com a inflação e sugerido que a política monetária ainda não está suficientemente restritiva para trazer os preços de volta à meta.
Analistas citados por instituições como Bank of America e Goldman Sachs destacam que a combinação de inflação em aceleração — inclusive no núcleo de serviços — e um mercado de trabalho robusto sustenta uma marcha mais agressiva na política monetária. O BTG Pactual observa que a inflação de serviços 'supercore' (que exclui aluguéis) acelerou para 4% em 12 meses, indicador de forte demanda doméstica.
Entre gestores brasileiros que acompanham o mercado americano, há consenso majoritário pela alta de 0,25 ponto nesta reunião. Segundo Andressa Durão, economista do ASA, os dados de inflação são suficientes para fortalecer o argumento por um aumento de juros e ajudar a convencer membros indecisos do comitê. Camilo Cavalcanti, gestor da Oby Capital, avalia que o FOMC mostra-se menos tolerante com a persistência da inflação acima da meta de 2%.
Por outro lado, existe uma tese minoritária que defende a manutenção das taxas nesta reunião. O Bradesco, em relatório, admite risco elevado de alta, mas aponta fatores que podem justificar a permanência da taxa atual, como a desaceleração dos aluguéis residenciais — que têm peso significativo no CPI — e a possibilidade de arrefecimento do índice conforme esses efeitos se consolidem. Gestores como Vinicius Flores, da Stratton Capital, também veem espaço para o Fed optar por não elevar os juros, citando a ancoragem das expectativas de inflação nos títulos do Tesouro americanos (Treasuries) e a expectativa por revisões metodológicas do PCE (índice de preços preferido pelo Fed) que serão divulgadas em 30 de setembro.
Para o restante de 2026, as projeções divergem entre as casas financeiras: o Bank of America projeta aumentos adicionais que totalizariam 75 pontos-base no ano; a Oby Capital espera pelo menos duas altas durante 2026; e a Stratton Capital estima uma taxa terminal de 4,25% até o fim de 2026. Gustavo Sung, da Suno Research, projeta uma única alta em 2026, condicionada à evolução do conflito no Oriente Médio e dos preços do petróleo, com retomada de elevações apenas em 2027.
Os efeitos de uma nova alta nos EUA repercutem no Brasil. Quando o Fed eleva a taxa, os rendimentos dos títulos do Tesouro americano aumentam — os yields do título de 10 anos dos EUA chegaram a 5%, o maior nível desde 2023, segundo dados citados — e recursos podem migrar para ativos americanos. Essa realocação pressiona a saída de dólares de mercados emergentes, valorizando o dólar localmente e encarecendo importados, insumos industriais e combustíveis. Para conter a pressão inflacionária decorrente e evitar maior saída de capital, o Banco Central do Brasil pode ser compelido a manter a taxa Selic elevada ou aumentá-la, o que encarece o crédito doméstico.
Além da reunião de setembro, o FOMC tem encontros previstos para 27–28 de outubro e 8–9 de dezembro, cenários em que novas decisões serão tomadas conforme a evolução dos dados econômicos e dos riscos geopolíticos.