O Federal Reserve (Fed), banco central dos EUA, elevou a taxa básica de juros nesta quarta-feira, em sua primeira alta em mais de três anos, e informou que a decisão foi unânime entre os membros do comitê. O comunicado também indicou que é provável que haja mais medidas de aperto monetário no futuro próximo para acelerar a queda da inflação.
A reação dos mercados foi negativa: os três principais índices acionários dos EUA fecharam em baixa. O Dow Jones Industrial Average recuou 1,21%, para 51.461,78 pontos; o S&P 500 perdeu 0,44%, para 7.552,14 pontos; e o Nasdaq Composite teve variação negativa de 0,01%, a 25.978,43 pontos.
Em entrevista após a decisão, o chair do Fed, Kevin Warsh, disse que a economia dos EUA se fortaleceu desde a última reunião, mas que a tendência da inflação mostrou pouca melhora. O estrategista-chefe de mercado do Carson Group, Ryan Detrick, afirmou que a alta "era amplamente esperada" e que "a realidade é que o Fed parece unido na luta contra a inflação". Detrick acrescentou que o banco central não acredita que vários aumentos nos próximos meses terão grande impacto sobre a economia, que se mantém sólida, e observou que a inflação está acima da meta de 2% há cinco anos.
Explicação rápida: o Fed (Federal Reserve) é o banco central dos EUA responsável pela política monetária. Treasuries refere-se aos títulos do Tesouro americano; seus rendimentos subiram após o anúncio do Fed, pressão típica quando taxas de juros sobem.
No início do pregão, os índices vinham em alta, impulsionados por recuperação no setor de semicondutores, mas a decisão do Fed inverteu o sentimento. Dados robustos de vendas no varejo divulgados mais cedo também indicaram que os consumidores continuaram a gastar, apesar do aumento dos preços, com impacto particular na gasolina.
O choque geopolítico na região do Oriente Médio exerceu papel de fundo nas negociações. A cobertura dos eventos aponta que a guerra envolvendo EUA e Israel contra o Irã intensificou os temores sobre fornecimento de energia. Além disso, ataques entre forças sauditas e combatentes houthis no Iêmen — estes com apoio do Irã — ampliaram o receio de extensão do conflito. Ainda assim, relatos de que a Arábia Saudita estaria liberando cargas adicionais de petróleo bruto via Omã ajudaram a aliviar parte das preocupações sobre interrupção de oferta.
No mercado de energia, o petróleo recuou após o alívio: o Brent para novembro, negociado na Intercontinental Exchange (ICE) de Londres, fechou em queda de 2,69% (US$ 2,92), a US$ 105,83 por barril. O WTI com vencimento mais curto caiu 3,2%.
Setorialmente, as ações de energia foram as mais afetadas, com queda de 3,0% entre os 11 setores do S&P 500. Destaques negativos incluíram Chevron (-2,9%), Exxon Mobil (-3,5%) e quedas superiores a 5% em Devon Energy e ConocoPhillips. Por outro lado, o setor de tecnologia foi o que mais se valorizou no conjunto do índice; ações de chips subiram 0,6%, seu primeiro ganho relevante desde o movimento coordenado de executivos do setor de IA por maior cautela no avanço das capacidades.
Entre companhias específicas, Robinhood caiu 5,5% após o Senado dos EUA não aprovar uma legislação abrangente sobre criptomoedas; além disso, o Departamento de Justiça havia acusado dois ex-engenheiros da empresa por suposto uso de informação privilegiada. Intel avançou 4,0% com notícias de que a sul-coreana SK Hynix estaria em negociações para fabricar chips de memória nos EUA; as ações da SK Hynix listadas nos EUA subiram 0,6%. IBM recuou 4,4% depois de anunciar que sua unidade de chips, Anderon, assinou acordo de financiamento com o governo americano. A Boeing caiu 3,7% após a diretora executiva Kelly Ortberg afirmar que está levando mais tempo do que o esperado para estabilizar a produção do 737 MAX em 47 aeronaves por mês.
No câmbio, o dólar se fortaleceu frente à maioria das divisas, incluindo o real brasileiro. Os rendimentos dos Treasuries dos EUA ganharam força após a decisão de política monetária, movimento que costuma atrair fluxo para ativos de renda fixa americana.
No Brasil, a B3 encerrou o pregão com investidores atentos à decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central, em meio a apostas de redução da taxa Selic de 14% para 13,75% ao ano — expectativa que afetou a postura de investidores locais diante do cenário externo mais apertado.
A reação dos mercados reflete a combinação de um Fed disposto a ação adicional para conter a inflação, indicadores de atividade ainda resistentes nos EUA e riscos geopolíticos que afetam os preços de energia. Analistas e investidores agora passam a precificar a possibilidade de novas altas de juros e monitoram sinais sobre o ritmo de desaceleração inflacionária em meio a um quadro econômico que, segundo representantes do Fed, segue sólido.