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Economia

Ex-candidato à presidência do Fed alerta: Kevin Warsh terá desafio estrutural para conter a inflação

Specialistas do mercado de renda fixa afirmam que aumentos de juros não serão suficientes para conter pressões de preços originadas em setores com oferta restrita, como energia e saúde. A análise aponta diferença entre inflação cíclica — sensível à política monetária — e inflação acíclica, que tende a resistir a movimentos das taxas de juros.

17 de setembro de 2026 às 20:40
Ex-candidato à presidência do Fed alerta: Kevin Warsh terá desafio estrutural para conter a inflação
Rick Rieder, executivo responsável pela área de renda fixa da gestora BlackRock e ex‑pre candidato à presidência do Federal Reserve (Fed), afirmou em nota recente que o novo presidente do Fed, Kevin Warsh, enfrentará um desafio importante: uma alta de juros pode não ser suficiente para reduzir custos que pressionam o orçamento das famílias. Fed é o banco central dos Estados Unidos, responsável por formular a política monetária, incluindo decisões sobre a taxa básica de juros. A intenção tradicional dessas elevações é desacelerar a demanda e, assim, conter a inflação. Na avaliação de Rieder, porém, a dinâmica atual da inflação apresenta dois componentes distintos. “O que é difícil concernente à inflação hoje, com base na análise do Federal Reserve de São Francisco, é que as partes cíclicas da inflação estão, em geral, bem comportadas, enquanto são as partes acíclicas que são difíceis de conter e tendem a resistir a movimentos nas taxas de juros”, escreveu o executivo. Por “componentes cíclicos” entende‑se aquelas pressões de preços que variam com o ciclo econômico — aumentam em momentos de demanda forte e recuam quando a economia desacelera. Já “componentes acíclicos” são elevações de preços que não respondem diretamente ao ciclo econômico e, portanto, são menos sensíveis à política monetária, segundo a descrição de Rieder. Ele citou setores que hoje apresentam elevações persistentes de custos: energia, seguros, saúde e educação. “Claramente, energia, seguros, saúde e educação estão enfrentando e repassando custos mais altos hoje. O desafio do Fed é combater isso com seu conjunto de ferramentas”, completou. A observação de Rieder reforça um debate frequente entre economistas e gestores: até que ponto a arma tradicional do banco central — aumentar a taxa de juros — é adequada para combater um processo inflacionário que tem origem em choques de oferta ou em mudanças estruturais de mercado? Stephanie Guild, diretora de investimentos da corretora Robinhood Markets, também avalia que um aumento de juros pode não resolver esses problemas setoriais. Em entrevista ao programa Opening Bid, da plataforma Yahoo Finance, ela disse: “Eu não acho que uma alta do Fed vá necessariamente resolver o problema. Enquanto o mercado certamente pode absorver 25 pontos‑base ou, você sabe, os 50 pontos‑base que está precificando para este ano, eu não acho que isso coloque uma solução para um problema diferente.” Guild explicou que há “alta demanda por dinheiro” e “alta necessidade por energia”, enquanto a oferta dessa última está em declínio. “Você tem essas coisas que alimentam a economia. Elas estão causando muita fricção agora. E não tenho certeza de que uma alta de juros vai realmente resolver isso.” A crítica central é que a política monetária atua, essencialmente, sobre a demanda agregada — encarecendo o crédito e desestimulando gastos. Mas quando a elevação de preços se origina de restrições de oferta (menos produto disponível, custos logísticos maiores, danos a capacidade produtiva, entre outros), apertar a política monetária tende a reduzir atividade sem, necessariamente, restaurar oferta ou reduzir preços nesses setores. No debate público, comentaristas e agentes do mercado também lembram fatores estruturais que contribuíram para aumentos permanentes de preços em segmentos específicos: mudanças na cadeia de suprimentos desde a pandemia de Covid‑19, alterações na capacidade de refino e transporte de combustíveis, políticas de tarifas comerciais, e deslocamentos na demanda por serviços substitutos — todos elementos que podem manter pressões inflacionárias mesmo com juros mais altos. A discussão se estende à experiência histórica. Alguns observadores recordam episódios como os choques de energia das décadas passadas, quando aumentos de custos de petróleo redefiniram níveis de preços em muitos setores, e a política monetária, embora tenha reduzido o ritmo de inflação, não foi o fator único que baixou preços. Em outras palavras, ajustes estruturais em oferta e produção também foram necessários. No mercado financeiro, expectativas sobre altas de juros costumam ser medidas em “pontos‑base” (um ponto‑base equivale a 0,01% da taxa). Quando gestores dizem que o mercado precifica 25 ou 50 pontos‑base, referem‑se a possíveis elevações da taxa básica. Rieder, contudo, adverte que “mover a taxa de juros hoje para um nível marginalmente mais restritivo é a diretiva do Fed diante do fato de que a inflação está alta em relação à meta”, ponderando que “inação não seria a rota preferida daqui para frente”. Assim, a postura sugerida por parte dos líderes do mercado é dupla: reconhecer a necessidade de agir para evitar que a inflação se auto‑alimente pela dinâmica de salários e preços, mas também admitir que a solução plena para pressões originadas na oferta pode exigir medidas além da política monetária, como intervenções setoriais, investimentos em capacidade produtiva e melhorias logísticas. Para o público interessado em mercado imobiliário e financiamento, a discussão tem implicações práticas. Juros mais altos encarecem empréstimos, como a mortgage — termo em inglês para hipoteca ou financiamento imobiliário — reduzindo a demanda por compra de imóveis e pressionando que compradores e investidores repensem custos e retornos. Ao mesmo tempo, se parte da inflação permanecer elevada por conta de setores não sensíveis aos juros, o poder de compra das famílias segue comprimido mesmo com menor atividade econômica. O cenário descrito por Rieder e comentado por Guild reforça uma ideia que tem ganhado espaço: o combate à inflação contemporânea pode exigir uma combinação de política monetária firme e políticas estruturais que atacam gargalos de oferta. Para o presidente do Fed recém‑empossado, a tarefa será articular essas frentes sem provocar uma desaceleração econômica desordenada.

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