A sequência de aperto monetário observada entre grandes bancos centrais fortaleceu os argumentos para que o Reserve Bank of India (RBI) comece em breve um ciclo de alta de juros. A pressão aumentou depois que o Federal Reserve — o banco central dos Estados Unidos — realizou, recentemente, sua primeira elevação de juros em três anos, num movimento que também sinalizou novas altas pela frente.
A escalada global de taxas e a própria evolução da inflação doméstica colocam o RBI sob uma combinação de fatores que, segundo economistas, tornam a reversão do afrouxamento monetário mais provável. A inflação ao consumidor medida pelo Índice de Preços ao Consumidor (CPI, na sigla em inglês) registrou 4,82%, um patamar que representa máxima em 20 meses para o país. Antes disso, o CPI teve leituras de 4,5% em julho e 4,4% em junho.
Especialistas ressaltam que, com a elevação dos juros nos EUA e em outros centros financeiros, o diferencial de taxas — a chamada “yield gap” ou diferencial de rendimento — entre ativos locais e estrangeiros tende a se reduzir. Esse recuo torna menos atraente o capital externo que busca maiores retornos, abrindo espaço para pressão sobre a moeda local. “Para a Índia, isso provavelmente significa antecipar o início do ciclo de alta de juros, à medida que o diferencial diminui, levando a uma pressão renovada sobre a moeda”, afirmou Indranil Pan, economista-chefe do Yes Bank.
Vários bancos centrais já seguiram caminho mais restritivo recentemente, entre eles o Banco Central Europeu (ECB), o Banco do Japão (Bank of Japan), o Reserve Bank of Australia, o Reserve Bank da Nova Zelândia e o Norges Bank, do Reino da Noruega. O Fed, ao elevar a taxa, também levou os rendimentos dos títulos americanos, como o título de 10 anos, a subir — um sinal de que os mercados estão precificando mais aumentos futuros.
No cenário doméstico, dados de componentes da inflação indicam que a pressão não é apenas temporária: a inflação de alimentos acelerou para 6% ante 5,5% no mês anterior, impulsionada por itens como açúcar e hortaliças; a inflação subjacente — que exclui componentes mais voláteis, conhecida como “core inflation” — subiu para 4,2% ante 3,9%.
Diante desse quadro, a maior parte dos economistas focados na Índia vê como provável uma alta de 25 pontos-base (0,25 ponto percentual) na taxa básica do país já em outubro. A última alteração na taxa de recompra (repo rate) pelo RBI ocorreu em dezembro de 2025, quando houve um afrouxamento de 25 pontos-base, reduzindo a taxa para 5,25%. A taxa de recompra é o instrumento pelo qual o banco central empresta dinheiro aos bancos comerciais, influenciando o custo do crédito na economia.
Madhavi Arora, economista-chefe da Emkay Global Financial Services, avaliou que um aumento de 25 pontos-base em outubro é hoje a hipótese mais provável, mas classificou o ciclo de alta como “raso”, projetando entre 50 e 75 pontos-base no total, e ressaltou que o comitê do RBI deverá analisar novos dados na revisão de outubro. Economistas de instituições como Deutsche Bank, DBS, Nomura e State Bank of India também passaram a prever um aperto de política monetária após a alta recente da inflação.
Sonal Varma, analista de pesquisa da Nomura, afirmou que, diante do avanço nos preços de alimentos e petróleo e do aumento de pressões subjacentes, a casa está mudando sua previsão para duas altas de 25 pontos-base, em outubro e dezembro. Ela atribuiu uma probabilidade de 60% a uma alta na reunião de outubro, contra 40% a manutenção da taxa, ressaltando que a decisão permanece apertada.
Radhika Rao, economista sênior do DBS Bank, acrescentou que a combinação de alta do petróleo, aperto das condições financeiras globais, crescimento doméstico firme e sinais de generalização das pressões de núcleo fortalece o caso por um aperto de 50 pontos-base na segunda metade do próximo ano fiscal, tornando a reunião de outubro “viva”.
A possível decisão do RBI terá efeitos amplos: além de buscar conter a inflação, a alta de juros tem como objetivo maintaining um diferencial de rendimento suficiente para justificar a continuidade de fluxos de capital estrangeiro. Quando os juros domésticos perdem atratividade em relação aos americanos, investidores estrangeiros tendem a realocar recursos, o que pode pressionar a moeda e aumentar a volatilidade nos mercados financeiros locais.
Em resumo, a combinação entre o movimento do Fed, a tendência global de aperto e a aceleração recente da inflação ao consumidor na Índia elevou as chances de o RBI iniciar um ciclo de alta nas próximas reuniões. Economistas divergem sobre a intensidade total desse ciclo, mas muitos concordam que um primeiro aumento de 25 pontos-base em outubro é agora um cenário plausível, sujeito à evolução dos preços de alimentos, commodities como o petróleo e dos dados econômicos nos próximos meses.
Termos explicados: Fed — abreviação de Federal Reserve, o banco central dos Estados Unidos, responsável por definir a política monetária americana; CPI — Consumer Price Index, índice que mede a inflação ao consumidor; taxa de recompra (repo rate) — instrumento pelo qual o banco central empresta a instituições financeiras e que influencia o custo do crédito; diferencial de rendimento (yield gap) — a diferença entre os rendimentos oferecidos por ativos em diferentes países, que afeta o apetite por investimentos estrangeiros.
Os olhos do mercado agora se voltam para a reunião do RBI em outubro e para a evolução dos preços de alimentos e de commodities, elementos que deverão pesar na decisão do comitê de política monetária.