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Relatório aponta déficit de cerca de 11 mil moradias nas Bahamas na década até a COVID-19

Estudo do Banco Interamericano de Desenvolvimento propõe US$50 milhões em projetos públicos e parcerias privadas para mitigar falta de moradias acessíveis nas Bahamas, mas alerta que medidas não resolvem aversão dos bancos ao crédito para habitação de baixo custo.

17 de setembro de 2026 às 23:09
Relatório aponta déficit de cerca de 11 mil moradias nas Bahamas na década até a COVID-19
As Bahamas enfrentaram um déficit persistente de moradias acessíveis ao longo de pelo menos uma década que se estendeu até a pandemia de COVID-19, segundo um relatório do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). O estudo estima uma carência média anual de 900 unidades, equivalente a um déficit total de aproximadamente 11.000 novas casas no período citado. O relatório aponta que a oferta média anual de novas residências entre 2010 e 2022 foi de cerca de 1.475 unidades, insuficiente para acompanhar a demanda. A produção declinou ainda mais em anos recentes, caindo para apenas 607 unidades em 2023, o que tem contribuído para o envelhecimento do parque habitacional e aumento de imóveis em estado de deterioração. Entre os fatores que agravam o problema estão deficiências institucionais, subcapitalização da instituição pública de crédito habitacional e um ambiente regulatório que, na avaliação do BID, desestimula tanto a construção quanto o aluguel para residentes locais. O relatório chama atenção para a Bahamas Mortgage Corporation (BMC), a empresa pública cujo mandato é fornecer financiamentos imobiliários para famílias de baixa e média renda. Segundo o estudo, a BMC tem capacidade de originar apenas US$2 milhões a US$3 milhões em novas hipotecas por mês — entre um sexto e um terço dos cerca de US$12 milhões demandados por mutuários já qualificados. Hipoteca (mortgage) é o empréstimo tomado para aquisição de um imóvel, normalmente garantido pelo próprio bem. A BMC também enfrenta problemas de balanço: títulos no valor de US$110 milhões venceram até 2026, taxas de inadimplência superiores a 25% e um custo sobre receita acima de 70%. Apesar disso, continua sendo a principal fonte de financiamento de longo prazo para famílias de menor renda, responsável por 70% das soluções habitacionais entregues pelo ministério responsável nos últimos cinco anos. Do lado da oferta pública, o governo não constrói novas moradias de aluguel social há três décadas. O estoque público atual de locação soma apenas 148 unidades, muitas com manutenção adiada e alugueis muito baixos. Entre 2021 e 2026, o ministério entregou 159 moradias unifamiliares e tinha outras 127 em construção, segundo o levantamento. A regulamentação também desempenha papel relevante. O estudo destaca que exigências de planejamento urbano e zoneamento têm desincentivado projetos de uso mais eficiente do solo, como empreendimentos multifamiliares. Além disso, a legislação de controle de alugueis e proteções aos inquilinos teria reduzido o apetite de proprietários por manter imóveis no mercado de locação de longo prazo, contribuindo para um estoque de mais de 20.000 imóveis vagos e um crescimento de 80% nas locações de curta duração (vacation rentals) entre 2018 e 2024. O governo, por sua vez, anunciou intenção de ampliar a regulação do mercado de aluguel privado de longo prazo. O plano prevê a criação de uma Residential Tenancy Authority — uma autoridade de locação residencial com poderes de fiscalização, registro obrigatório de imóveis e exigência de padrões mínimos de habitabilidade. Analistas alertam que medidas de maior supervisão e publicização de proprietários infratores podem, se mal desenhadas, reduzir ainda mais a oferta privada de moradias para aluguel, como já ocorreu em outras cidades. Para enfrentar o problema estrutural, o BID propôs um projeto de US$50 milhões que combina desenvolvimento público e parcerias com o setor privado (PPPs). Parceria público-privada (PPP) é um arranjo em que o setor público e empresas privadas compartilham investimentos, riscos e responsabilidades na execução de projetos de infraestrutura ou serviços. Documentos do BID indicam investimentos previstos em New Providence, Grand Bahama e Abaco. Em New Providence, a proposta prevê gastos de US$3,937 milhões em infraestrutura para 30 lotes e a construção de dois prédios de alta densidade com 24 unidades. Em Grand Bahama, a maior fatia, de US$13,388 milhões, destina-se à reabilitação de até 35 edifícios em Garden Village, potencialmente gerando 420 unidades. Em Abaco, US$5,2 milhões seriam aplicados no desenvolvimento de lotes servidos para 30 casas unifamiliares no subdistrito Central Pines. O BID, contudo, reconhece uma limitação central: o projeto não mudará a postura dos bancos comerciais em relação à concessão de crédito para habitação de baixo custo. Dados compilados no estudo mostram que, entre 2015 e 2025, os compromissos de hipotecas residenciais caíram 30% para construções novas e 20% para imóveis existentes. A relação média empréstimo-valor (loan-to-value, LTV) reduziu-se de 81% em 2015 para 71% em 2024, o que indica exigência de maior entrada dos compradores e menor acessibilidade para famílias de baixa renda. O relatório também destaca que o crescimento populacional e a concentração urbana aumentaram a pressão por moradia em New Providence, onde cerca de 74% da população do país residia em 2022. Apesar das Bahamas serem classificadas como país de alta renda, o BID sublinha que o nível de desigualdade é o maior do Caribe e que os investimentos governamentais em habitação (0,02% do PIB) são muito inferiores aos de países vizinhos (média de 1,3% do PIB). Como conclusão, o estudo adverte que o acesso a moradia adequada está se deteriorando devido a um conjunto de fatores: falta de oferta, desgaste do estoque existente, falhas institucionais e relutância dos bancos em financiar habitação de baixo custo. O pacote proposto pelo BID busca aliviar parte do déficit por meio de produção direta e reabilitação, mas especialistas e gestores do setor apontam que mudanças mais profundas no financiamento e no arcabouço regulatório serão necessárias para reverter a tendência de longo prazo.

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