17 de setembro de 2026
Loudoun County, no norte da Virgínia, tornou-se um epicentro físico da internet: concentra a maior quantidade de prédios de data centers no mundo e abastece uma porção significativa do tráfego digital global. Mas o crescimento acelerado das instalações de servidores — e, mais recentemente, da demanda por inteligência artificial — deixou a rede elétrica local em um ponto de ruptura. Hoje, a lista de pedidos de conexão à rede é medida em anos, e a escassez de capacidade elétrica altera cálculo econômico e regulatório para governos, investidores e empresas do setor.
Segundo dados do próprio condado, em 1º de março de 2026 havia aproximadamente 233 edifícios dedicados a data centers construídos ou em construção, totalizando cerca de 56,5 milhões de pés quadrados (aproximadamente 5,25 milhões de metros quadrados) de área bruta. Permissões recentes, emitidas desde 2023, indicam que o tamanho médio de um novo prédio gira em torno de 339 mil pés quadrados. Há ainda 35,7 milhões de pés quadrados aprovados, mas não construídos, e outros 20,7 milhões em processo legislativo.
O impacto financeiro no orçamento do condado é grande: a receita tributária relacionada a data centers alcançou US$ 1,2 bilhão no ano fiscal de 2026, equivalente a 39% do gasto total do condado. A projeção para 2027 eleva esse montante para US$ 1,3 bilhão, cerca de 40% do orçamento. Em outras palavras, aproximadamente dois em cada cinco dólares gastos pelo governo local hoje vêm de armazéns de servidores — uma transformação profunda para uma jurisdição que antes dependia majoritariamente de impostos residenciais.
A concessionária que atende a região é a Dominion Energy Virginia. No relatório anual de 2025 arquivado junto à Securities and Exchange Commission (SEC), a empresa informa que os data centers já representaram 28% de toda a eletricidade vendida em 2025, ante 26% no ano anterior. A Dominion também projeta que a carga de pico regional crescerá 5,4% ao ano na próxima década. Em 2025, 38 dos 50 maiores recordes históricos de demanda de pico foram registrados — e as 22 maiores marcas pertencem a esse mesmo ano.
A companhia declarou ainda que carrega mais de 48 gigawatts de capacidade adicional solicitada por data centers em diferentes estágios de contratação — um volume que, segundo a própria empresa, é comparável ao consumo elétrico do Reino Unido em uma tarde de verão. Esse conjunto de pedidos superou a capacidade de expansão imediata da rede, alargando prazos de conexão que antes eram de três a quatro anos para instalações de alta demanda e que, em casos reportados, já chegaram a 17 anos.
Como resposta, alguns operadores começaram a instalar turbinas a gás em suas próprias instalações e a usar geradores a diesel por dias seguidos quando a rede falha, medida que levanta questões ambientais e operacionais. Do ponto de vista regulatório e administrativo, a reação chegou também ao município e ao Estado.
Em 2025 Loudoun eliminou o regime de "by-right" (desenvolvimento por direito), que permitia a construção de data centers como se fossem escritórios comuns sem aprovações adicionais. A partir dessa mudança, novas propostas passam a exigir uma exceção especial com audiência pública e votação do Conselho de Supervisores do condado. No front estadual, a comissão reguladora de serviços públicos orientou que, a partir de janeiro de 2027, clientes de grande consumo terão de assinar compromissos de 14 anos para pagar pela capacidade elétrica solicitada mesmo que a utilizem menos — um mecanismo pensado para reduzir candidaturas especulativas que congestionam a fila de conexões. Projetos de lei em tramitação na Assembleia Geral da Virgínia também tentam dar aos governos locais poder legal para negar pedidos de data centers quando a rede não suportar a carga.
A história do cluster remonta ao início da internet comercial: em 1992, a criação de um ponto de troca de tráfego (MAE East) e a instalação subsequente de grandes provedores transformaram áreas planas do condado em locais preferenciais para servidores que precisam atingir a internet global com a menor latência possível. O processo foi acelerado em 2000, quando a administração de zoneamento decidiu tratar data centers como edifícios de escritórios, permitindo expansão rápida em áreas amplas.
Para investidores e profissionais do mercado imobiliário, a situação impõe novas camadas de risco e oportunidades. Por um lado, a dependência crescente das receitas de data centers torna o orçamento do condado vulnerável a ciclos da indústria. Por outro, a restrição de oferta de energia e a necessidade de compromissos contratuais de longa duração intensificam o risco regulatório e operacional em projetos que demandam alta potência.
Alguns termos importantes para quem acompanha investimentos nos EUA: REIT (Real Estate Investment Trust) é um fundo imobiliário que investe em ativos como edifícios comerciais — inclusive data centers; mortgage é a hipoteca, o empréstimo com garantia sobre imóveis; MBS (mortgage-backed securities) são títulos lastreados em hipotecas; e DSCR (debt-service coverage ratio) é a razão entre o fluxo de caixa operacional e o serviço da dívida, usada por credores para avaliar capacidade de pagamento. Todos esses instrumentos e métricas ganham novas considerações quando a disponibilidade de energia e a regulação local passam a influenciar a viabilidade operacional de um imóvel de alta potência.
O caso de Loudoun mostra que, mesmo em um setor digital, a infraestrutura física e a capacidade de rede elétrica continuam a definir limites concretos para expansão. Para quem busca oportunidades no mercado de data centers — ou já tem exposição a REITs e projetos de grande consumo elétrico —, avaliar a disponibilidade de energia, os riscos regulatórios locais e os compromissos contratuais exigidos pela concessionária passou a ser tão crítico quanto a localização física e o custo do terreno.